quarta-feira, 25 de junho de 2014

“O modelo dos modelos” e o Atendimento Educacional Especializado



“O modelo dos modelos” e o Atendimento Educacional Especializado 



O escritor Italo Calvino, ao criar o personagem Palomar nos permite realizar diversas reflexões, dentre elas, a da nossa permanente busca por “modelos”. O personagem do texto destacado para nossa leitura, ao final conclui que seguir modelos não traria as respostas que tanto almejava: “Neste ponto só restava a Palomar apagar da mente os modelos e os modelos de modelos. Completado também esse passo, eis que ele se depara face a face com a realidade mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”. Para fazer isto, melhor é que a mente permaneça desembaraçada, mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e de princípios subentendidos e não demonstráveis. Não é uma linha de conduta da qual possa extrair satisfações especiais, mas é a única que lhe parece praticável” (Italo Calvino). Mas quais as relações dessas reflexões para o AEE?
Percebo em nosso cotidiano escolar que a procura por modelos é bem presente, sobretudo quando nos referimos à inclusão dos alunos público alvo da Educação Especial. Constantemente nos deparamos com perguntas como: O que ele tem? O que posso fazer? Como avaliar? Como intervir?  Também já ouvi a seguinte assertiva: não sei o que fazer, pois não sou especialista. E será que nós especialistas sabemos de todas as respostas? Felizmente não. O que temos é a compreensão de cada aluno, de acordo com sua singularidade, irá demonstrar o quanto é necessário compreendermos o que significa um ensino de atenção as diferenças.
Nas entrelinhas percebo que muitos docentes, ainda permanecem com a crença, de que é possível manter as mesmas práticas pedagógicas, nas quais nós e nossos antepassados fomos “instruídos”. Percebo também certo “grito de socorro” dos professores da sala de aula comum aos professores do AEE, baseados também em uma crença de que esses possuem “as respostas prontas”. Então volto a refletir sobre o senhor Palomar, que percebeu em sua árdua caminhada, que deveria se contentar com seus “sins”, “nãos” e “mas”. Ao final das disciplinas desse curso de especialização em AEE percebo que a chegada possui na verdade o sentimento de início. Sim, o começo de uma nova forma de refletir acerca da inclusão dos nossos alunos numa perspectiva histórico cultural, que considere sobretudo suas potencialidades. Contudo, considero que essa “tomada de consciência”, por parte de muitos docentes, somente poderá nascer, se oportunizarmos formações que busquem essa construção, que não é um caminho fácil devo dizer, mas imprescindível.



*Italo Calvino. “O modelo dos modelos”. Texto disponibilizado na disciplina de Metodologia Científica do Curso de Formação Continuada de Professores para o AEE UFC / SECADI / UAB / MEC. Versão 2013.




“O modelo dos modelos”*
Italo Calvino

Houve na vida do senhor Palomar uma época em que sua regra era esta: primeiro, construir um modelo na mente, o mais perfeito, lógico, geométrico possível; segundo, verificar se tal modelo se adapta aos casos práticos observáveis na experiência; terceiro, proceder às correções necessárias para que modelo e realidade coincidam. [..] Mas se por um instante ele deixava de fixar a harmoniosa figura geométrica desenhada no céu dos modelos ideais, saltava a seus olhos uma paisagem humana em que a monstruosidade e os desastres não eram de todo desaparecidos e as linhas do desenho surgiam deformadas e retorcidas. [...] A regra do senhor Palomar foi aos poucos se modificando: agora já desejava uma grande variedade de modelos, se possível transformáveis uns nos outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que se adaptasse melhor a uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas realidades distintas, no tempo e no espaço. [...] Analisando assim as coisas, o modelo dos modelos almejado por Palomar deverá servir para obter modelos transparentes, diáfanos, sutis como teias de aranha; talvez até mesmo para dissolver os modelos, ou até mesmo para dissolver-se a si próprio.
Neste ponto só restava a Palomar apagar da mente os modelos e os modelos de modelos. Completado também esse passo, eis que ele se depara face a face com a realidade mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”. Para fazer isto, melhor é que a mente permaneça desembaraçada, mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e de princípios subentendidos e não demonstráveis. Não é uma linha de conduta da qual possa extrair satisfações especiais, mas é a única que lhe parece praticável.

*Italo Calvino. “O modelo dos modelos”. Texto disponibilizado na disciplina de Metodologia Científica do Curso de Formação Continuada de Professores para o AEE UFC / SECADI / UAB / MEC. Versão 2013.


Nenhum comentário:

Postar um comentário