A
surdocegueira é uma deficiência única que necessita de um trabalho específico
para favorecer o desenvolvimento das pessoas que possuem perdas auditivas e
visuais concomitantemente. Segundo McInnes (1999), as pessoas com surdocegueira podem ser
subdivididas em quatro categorias:
·
Indivíduos que eram cegos e se tornaram surdos;
·
Indivíduos que eram surdos e se tornaram cegos;
·
Indivíduos que se tornaram surdocegos;
· Indivíduos que nasceram ou adquiriram surdocegueira
precocemente, ou seja, antes do desenvolvimento da linguagem, habilidades
comunicativas ou cognitivas que pudessem ser utilizadas para sua compreensão de
mundo.
As
quatro categorias citadas podem ser agrupadas em surdocegos congênitos ou surdocegos
adquiridos. E ainda de acordo com a idade em que a surdocegueira se manifestou podem
ser classificados como surdocegos pré-linguísticos ou surdocegos
pós-linguísticos.
Segundo Olson (1995) a surdocegueira refere-se a “uma
pessoa que tenha deficiências visuais e auditivas de um grau de tal
importância, que esta dupla perda sensorial cause problemas de aprendizagem, de
conduta e afete suas possibilidades de trabalho [...]” Serpa (p.1) enfatiza que “a surdocegueira é uma deficiência única e especial que
requer métodos de comunicação especiais, para viver com as funções da vida
cotidiana”.
Dentre
as necessidade específicas de aprendizagem das pessoas surdocegas Mc Innes
(1999) cita que essas demonstram “ [...] dificuldade de observar, compreender e
imitar o comportamento de membros da família ou de outros que venha entrar em
contato, devido à combinação das perdas visuais e auditivas que apresentam”.
No que se refere a definição de deficiência múltipla
percebe-se um agrupamento mais heterogêneo, uma vez que considera a associação
de duas ou mais deficiências que
interferem de modo significativo o funcionamento da pessoa e seu relacionamento
social (MEC/SEESP, 2002).
Segundo
Maia (2011) algumas considerações são importantes para não considerarmos a
pessoa surdocega como pessoa com deficiência múltipla. A pessoa surdocega necessita da “mediação de
comunicação para poder receber, interpretar e conhecer o que lhe cerca. Seu
conhecimento do mundo se faz pelo uso dos canais sensoriais proximais como:
tato, olfato, paladar, cinestésico, proprioceptivo e vestibular”. Ao passo que
na deficiência Múltipla a pessoa poderá
ter o apoio da visão e/ou audição como referencial para o desenvolvimento de
suas aprendizagens. Uma vez que esses sentidos são muito importantes na maioria
desses processos.
COMUNICAÇÃO PARA PESSOAS
COM SURDOCEGUEIRA
Segundo Serpa (2002, p.2) tanto para as pessoas surdocegas, como
para as que apresentam deficiência múltipla, a comunicação deve ser considerado
o mais importante na implementação de intervenções educacionais e terapêuticas.
Uma vez que “a comunicação entre os seres humanos é um processo interpessoal por
meio do qual se estabelecem vínculos com os outros; esta relação é estabelecida
de diferentes maneiras e, segundo as possibilidades comunicativas de cada um,
pode acontecer com movimentos do corpo, utilizando
objetos do ambiente ou desenvolvendo um código linguístico” (SERPA,2002, p. 2).
Nesse sentido podemos afirmar que a comunicação é necessária ao desenvolvimento
humano e consequentemente influenciará a aquisição das aprendizagens ao longo da
vida.
Sabemos que a comunicação inicial das pessoas
surdocegas e pessoas com DMU são na maioria das vezes expressas por meio de
movimentos corporais e vocalizações. Pesquisadores dessa área explicitam que o aprendizado
de rotinas organizadas são facilitadores para ampliação das habilidades de
comunicação dessas pessoas.
Explicitaremos abaixo algumas estratégias para
aquisição de comunicação que podem ser utilizadas tanto para pessoas surdocegas,
como para pessoas com deficiência múltipla.
OBJETOS DE REFERÊNCIA DAS ATIVIDADES
“São objetos que têm significados
especiais, os quais têm a função de substituir a palavra e, assim, podem
representar pessoas, objetos, lugares, atividades ou conceitos associados a
eles” (MEC, 2010, P. 13)
“Um boné, por exemplo, pode ser, para um aluno com
surdocegueira, um objeto que antecipa a
atividade de orientação e mobilidade” (MEC, 2010, P. 13)
CAIXAS DE ANTECIPAÇÃO
Para as pessoas que não possuem
nenhum sistema formal de comunicação os pesquisadores recomendam o uso de objetos
de referencia para elaboração de caixas de antecipação, que poderão ser
associados tanto a atividades que ainda irão ocorrer, quanto a assimilação das
primeiras palavras.
CALENDÁRIOS
Conforme explica Maia et al (2008)
“calendários são instrumentos que favorecem o desenvolvimento da noção de tempo
e que ajudam os alunos a estabelecer e compreender rotinas. Os calendários
também são úteis no desenvolvimento da comunicação, no ensino de conceitos
temporais abstratos e na ampliação do vocabulário”. Segundo os pesquisadores Rowland e Schweigert (p. 1) “muitas
pessoas com deficiência múltipla ou com surdocegueira podem aprender a se
comunicar por meio de gestos, mas podem ter dificuldade para conseguir uma
comunicação usando símbolos abstratos tais como: palavras faladas ou língua de
sinais (Rowland e Schweigert, 1989; Rowland & Stremel-Campbell, 1987). Eles
geralmente apresentam dificuldade de interpretar a informação no que se refere
ao conceito da correspondência um-para-um entre um, ou seja, um som arbitrário
(uma palavra falada) ou movimento (um sinal de libras) e a sua referência. Há alguns anos
nós realizamos estudos sobre o uso de um sistema de símbolo concreto
conceitualmente que chamamos de “símbolos tangíveis” (Rowland e Schweigert,
1989, 1990)”.
As utilizações
de símbolos tangíveis possibilitam conforme a exposição das figuras abaixo, a
evolução na comunicação de pessoas com comprometimentos significativos, ao
partir da utilização de um objeto concreto até a sua representação mais
abstrata.
Figura
1*: “Mostra a evolução de um objeto concreto e sua representação mais abstrata
e abaixo das figuras uma seta onde está escrito de um lado “o mais concreto” e
na outra ponta da seta “o mais abstrato”. A figura começa com o desenho de uma
toalha e abaixo está escrito “toalha completa”. A seguir à direita está o
desenho de uma pequena toalha e abaixo está escrito “pedaço de toalha”. À
direita há uma pequena seta e em seguida o desenho de um cartão com o desenho
de uma pequenina toalha e abaixo está escrito “pedaço de toalha colado em um
cartão”. À direita outra seta e a seguir o desenho de um cartão como o anterior
com o acréscimo de uma cela Braille com a letra T no topo do cartão do lado
direito e abaixo está escrito “pedaço de toalha mais uma etiqueta”. Por fim
mais uma seta à direita e a ultima figura de um cartão com apenas uma cela
Braille com a letra T onde se lê abaixo “etiqueta”. Ao final do quadro está
escrito “símbolos táteis podem ser objetos, partes de objetos, símbolos
abstratos ou Braille”.
Figura
2*: Mostra a evolução de um objeto concreto e sua representação mais abstrata e
abaixo das figuras uma seta onde está escrito de um lado “o mais concreto” e na
outra ponta da seta “o mais abstrato”. A figura começa com o desenho de uma
toalha e abaixo está escrito “toalha completa”. A seguir à direita está o
desenho de uma pequena toalha e abaixo está escrito “pedaço de toalha”. À
direita há uma pequena seta e em seguida o desenho de um cartão com o desenho
de uma pequenina toalha e abaixo está escrito “imagem da toalha”. À direita
outra seta e a seguir o desenho de um cartão como o anterior com o acréscimo da
palavra toalha no topo do cartão do lado direito e abaixo está escrito “imagem
da toalha mais uma etiqueta”. Por fim
mais uma seta à direita e a última figura de um cartão com apenas a palavra
toalha onde se lê abaixo “somente a etiqueta”
Exemplo de calendário
“Figura demonstra a foto de um sistema de calendário feito em
papelão em formato de prateleira e encapado na cor preta com as divisórias em
verde para dar alto contraste, com objetos contrastantes, que estão dispostos
na sequencia que serão realizadas as atividades, os objetos são estão na
seguinte ordem: prato, bola, sacola e escova e pasta dente e no final colocar a
caixa do acabou, uma caixa diferente de sapato encapada de vermelho” (BLAHA, 2003, p.27)
Para
maiores informações consulte as referências abaixo.
Bons
estudos!
REFERÊNCIAS
BLAHA,
Robbie. Calendários - Para
Alunos com múltiplas deficiências Incluindo surdocegueira. Escola Texas para Cegos e com Baixa
Visão – 2003. Tradução em 2005 – Projeto Horizonte. Tradução: Márcia Maurilio
Souza. Revisão: Shirley Rodrigues Maia e Lília Giacomini.
BOSCO,
Ismênia C. M. G.; MESQUITA, Sandra R. S. H.; MAIA, Shirley R. Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação
Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar - Fascículo
05: Surdocegueira e Deficiência Múltipla (2010).
BRENNAN, Vickie, PECK, Flo, LOLLI, Dennis. Sugestões
para modificação do Ambiente em Casa e na Escola - Um manual para pais e
professores de crianças com surdocegueira. Tradução José Carlos Morais (2004). Revisão
e Adaptação para o português do Brasil: Shirley Rodrigues Maia e Lília Giacomini.
MAIA, Shirley Rodrigues. Aspectos Importantes para saber sobre
Surdocegueira e Deficiência Múltipla. São Paulo, 2011.
OLSON, M. R, GELHAUS M.M. Utilizando Cor e
Contraste para modificar o ambiente educacional de alunos com deficiência
visual e múltipla deficiência. Using
color and contrast to modify the educational environment for the students with
impairment and multiple disabilities (M.M.
Gellhaus; M.R. Olson). Tradução:
Laura Lebre Monteiro Anccilloto (2007). Revisão: Lilia Giacomini (2009).
OLSON,
Stig. Surdocegueira: apresentação na “A surdez: um mundo de encontro”, Santa Fé
de Bogotá, 1995.
ROWLAND, Charity; SCHWEIGERT,
Philip - Soluções Tangíveis para
Indivíduos Com Deficiência Múltipla e ou com Surdocegueira. Apostila In mimeo. Tradução Acess. Revisão:
Shirley R. Maia - 2013.
SERPA, Ximena Fonegra, Comunicação para Pessoas
com Surdocegueira. Tradução do livro Comunicacion
para Persona Sordociegas, INSOR-Colômbia 2002.
*Descrição das figuras do livro “Calendários - Para
Alunos com múltiplas deficiências Incluindo surdocegueira” disponibilizados
pela coordenação da disciplina de DMU do Curso de Especialização em Atendimento
Educacional Especializado da Universidade Federal do Ceará. UFC / SECADI / UAB
/ MEC. 2013.


