“O modelo dos modelos” e o Atendimento
Educacional Especializado
O escritor Italo Calvino, ao criar o personagem Palomar nos permite
realizar diversas reflexões, dentre elas, a da nossa permanente busca por
“modelos”. O personagem do texto destacado para nossa leitura, ao final conclui
que seguir modelos não traria as respostas que tanto almejava: “Neste ponto só
restava a Palomar apagar da mente os modelos e os modelos de modelos.
Completado também esse passo, eis que ele se depara face a face com a realidade
mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus
“nãos”, os seus “mas”. Para fazer isto, melhor é que a mente permaneça
desembaraçada, mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e
de princípios subentendidos e não demonstráveis. Não é uma linha de conduta da
qual possa extrair satisfações especiais, mas é a única que lhe parece
praticável” (Italo Calvino). Mas quais as relações dessas reflexões para o AEE?
Percebo em nosso cotidiano escolar que a procura por modelos é bem
presente, sobretudo quando nos referimos à inclusão dos alunos público alvo da
Educação Especial. Constantemente nos deparamos com perguntas como: O que ele tem?
O que posso fazer? Como avaliar? Como intervir? Também já ouvi a seguinte assertiva: não sei o
que fazer, pois não sou especialista. E será que nós especialistas sabemos de
todas as respostas? Felizmente não. O que temos é a compreensão de cada aluno, de
acordo com sua singularidade, irá demonstrar o quanto é necessário
compreendermos o que significa um ensino de atenção as diferenças.
Nas
entrelinhas percebo que muitos docentes, ainda permanecem com a crença, de que
é possível manter as mesmas práticas pedagógicas, nas quais nós e nossos
antepassados fomos “instruídos”. Percebo também certo “grito de socorro” dos
professores da sala de aula comum aos professores do AEE, baseados também em
uma crença de que esses possuem “as respostas prontas”. Então volto a refletir
sobre o senhor Palomar, que percebeu em sua árdua caminhada, que deveria se
contentar com seus “sins”, “nãos” e “mas”. Ao final das disciplinas desse curso
de especialização em AEE percebo que a chegada possui na verdade o sentimento
de início. Sim, o começo de uma nova forma de refletir acerca da inclusão dos
nossos alunos numa perspectiva histórico cultural, que considere sobretudo suas
potencialidades. Contudo, considero que essa “tomada de consciência”, por parte
de muitos docentes, somente poderá nascer, se oportunizarmos formações que
busquem essa construção, que não é um caminho fácil devo dizer, mas
imprescindível.
*Italo Calvino. “O modelo dos
modelos”. Texto disponibilizado na disciplina de Metodologia Científica do Curso
de Formação Continuada de Professores para o AEE UFC / SECADI / UAB / MEC.
Versão 2013.
“O modelo dos modelos”*
Italo Calvino
Houve na vida do
senhor Palomar uma época em que sua regra era esta: primeiro, construir um
modelo na mente, o mais perfeito, lógico, geométrico possível; segundo,
verificar se tal modelo se adapta aos casos práticos observáveis na
experiência; terceiro, proceder às correções necessárias para que modelo e
realidade coincidam. [..] Mas se por um instante ele deixava de fixar a
harmoniosa figura geométrica desenhada no céu dos modelos ideais, saltava a
seus olhos uma paisagem humana em que a monstruosidade e os desastres não eram
de todo desaparecidos e as linhas do desenho surgiam deformadas e retorcidas.
[...] A regra do senhor Palomar foi aos poucos se modificando: agora já
desejava uma grande variedade de modelos, se possível transformáveis uns nos
outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que se
adaptasse melhor a uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas
realidades distintas, no tempo e no espaço. [...] Analisando assim as coisas, o
modelo dos modelos almejado por Palomar deverá servir para obter modelos
transparentes, diáfanos, sutis como teias de aranha; talvez até mesmo para
dissolver os modelos, ou até mesmo para dissolver-se a si próprio.
Neste ponto só
restava a Palomar apagar da mente os modelos e os modelos de modelos.
Completado também esse passo, eis que ele se depara face a face com a realidade
mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus
“nãos”, os seus “mas”. Para fazer isto, melhor é que a mente permaneça
desembaraçada, mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e
de princípios subentendidos e não demonstráveis. Não é uma linha de conduta da
qual possa extrair satisfações especiais, mas é a única que lhe parece
praticável.
*Italo Calvino. “O modelo dos
modelos”. Texto disponibilizado na disciplina de Metodologia Científica do Curso
de Formação Continuada de Professores para o AEE UFC / SECADI / UAB / MEC.
Versão 2013.




