Historicamente as
discussões epistemológicas entre defensores das tendências gestualistas e oralistas tem apresentado repercussões nas
propostas educacionais destinadas as pessoas com surdez. Segundo Damázio (2010)
essas discussões focadas na aceitação de
uma língua ou de outra, relegam as potencialidades individuais e coletivas das
pessoas com surdez contribuindo para sua
segregação social.
A atual política da Educação Especial na perspectiva da educação
inclusiva (2008) se constitui um avanço ao preconizar a inclusão de todos os
alunos na escola regular. Entretanto, apesar dos avanços na legislação é
necessária a adoção de diversas mudanças nas práticas pedagógicas hoje vigentes
em nossas escolas.
O paradigma inclusivo presente na atual política nacional de Educação
Especial prevê a escolarização de todas as pessoas com ou sem deficiência, nas
escolas comuns. Damázio (2010) ressalta que não
considera a pessoa com surdez um deficiente, mas destaca que possuem perda
sensorial auditiva, que a limita a função perceptiva da audição. Contudo,
reafirma existência de diversas potencialidades inerentes a todos os seres
humanos. Destarte, ao considerar a pessoa com surdez, como ser humano
descentrado, dotado de potencialidades
que necessitam ser estimuladas, desenvolvidas e valorizadas, reafirma
a necessidade de um ensino que considere em suas práticas pedagógicas,
essas especificidades. Nesse sentido
Isso nos faz pensar num sujeito com surdez não
reduzido ao chamado mundo surdo, com a identidade e a cultura surda, mas numa
pessoa com potencial a ser estimulado e desenvolvido nos aspectos cognitivos,
culturais, sociais e lingüísticos, pois a concepção de pessoa com surdez
descentrada se caracteriza pela diferença [...] (DAMÁZIO, 2010, p. 48)
A adoção da abordagem bilíngue para a educação linguística da pessoa com
surdez, segundo Damázio (2010, p.50) deve considerar a busca pela
ressignificação das compreensões vigentes, a fim de que sejam discutidos para além do uso da Libras,
a necessidade de “[...] ambientes educacionais estimuladores, que
desafiem o pensamento e exercitem a capacidade perceptivo-cognitiva”. A autora
explicita, que se somente a utilização
da Língua natural, fosse necessária para
consolidação das aprendizagens, no caso das pessoas ouvintes, não teriamos
alunos dificulades de aprendizagem em
nossas escolas. Corroboro com a autora quando enfatiza
[...] o fracasso do
processo educativo das pessoas com surdez é um problema da qualidade das
práticas pedagógicas e não um problema somente focado nessa ou naquela língua,
ou mesmo numa diferença cultural, envolvendo outra cultura, uma comunidade com
identidades surdas próprias (DAMÁZIO, 2010, p.50-51 )
Conforme Damázio (2010), a construção da abordagem bilíngue na educação
das pessoas com surdez para o AEE necessita apresentar três momentos didático-pedagógicos: AEE de Libras, AEE em Libras e AEE
para o Ensino de Língua Portuguesa. No
primeiro momento denominado AEE de Libras, o AEE objetiva o ensino de
Libras no contexto da escola comum. Os alunos com surdez participarão de aulas
no contraturno, cujo foco é o ensino da Libras, contemplando sobretudo, a aprendizagem de termos
científicos que estejam sendo trabalhados na sala de aula comum. Esse momento
do AEE deve ser realizado por um professor e/ ou instrutor de Libras
preferencialmente surdo. Dessa maneira, o aluno poderá ter as interações em um
ambiente em que a Libras é utilizado naturalmente, sendo essas interações
essenciais para evolução do aprendizado dessa
Língua.
No segundo momento denominado AEE
em Libras, Damázio (2010) explicita que esse deve ocorrer levando-se em
consideração os conhecimentos relativos a todos os conteúdos curriculares.
Assim os conteúdos devem ser explicados em Libras por um professor,
preferencialmente surdo, diariamente no contraturno para o aluno com surdez.
Figura 01: Professor ministrando aula em Língua de Sinais
dos conteúdos curriculares oficiais (DAMÁZIO, 2007, p. 28)
No terceiro no momento
didático pedagógico, denominado AEE para o ensino da Língua Portuguesa, ocorre
o ensino das especificidades da Língua Portuguesa. Esse deverá ser realizado
preferencialmente por um professor habilitado para o ensino da Língua
Portuguesa. Esse profissional deverá avaliar as aprendizagem do aluno com
relação à Língua Portuguesa na modalidade escrita, reconhecendo essa língua
como segunda língua (L 2) da pessoa com
surdez.
Considero
que a construção do
Atendimento Educacional Especializado para pessoas com surdez, preconizados por
Damázio (2010) necessita ser implementado em diferentes contextos de nossas
escolas públicas brasileiras. Nessa perspectiva, a partir de experiências
concretas poderemos fazer com esse atendimento, cumpra sua função ao possibilitar
as pessoas com surdez a construção de uma vida autônoma em sociedade, por meio
do reconhecimento e da valorização de suas potencialidades sociais, afetivas,
cognitivas e linguísticas.
REFERÊNCIAS
DAMÁZIO, M. F. M.; FERREIRA, J. Educação Escolar de Pessoas com
Surdez-Atendimento Educacional Especializado em Construção. Revista
Inclusão: Brasília: MEC, V.5, 2010. p.46-57.
DAMÁZIO, Mirlene F. M. Momento
Didático-Pedagógico: O Atendimento Educacional Especializado em Libras na
Escola Comum. In:
Atendimento Educacional Especializado: Pessoa com surdez. Curitiba: CROMOS,
2007. p. 19-21.
*Síntese do texto de Damázio (2010) elaborado por Marisa Ribeiro de Araujo.

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